domingo, 29 de março de 2009

Ponto de reparo

Ontem pela manhã, ao examinar uma senhora sexagenária durante uma consulta, algo - pela milésima vez - me chamou atenção, trazendo à tona uma pergunta que martelava na minha cabeça desde a faculdade. Afinal, "POR QUE AS VELHAS SEMPRE USAM A SAIA ACIMA DO UMBIGO?!" Lembro que há uns 4 anos atrás era muito difícil conter a risada interior ao ver aquela vozinha com a saia lá nos peitos...
Fiz um apanhado histórico em não tão extensa revisão de literatura a cerca de hábitos e costumes antigos, sem sucesso, o que me reveste da responsabilidade de responder esse questionamento à humanidade! Pois bem, penso que sejam cinco os motes que levem as vividas senhoras a se adornar de maneira tão peculiar:

(1) Na antiguidade o umbigo era considerado algo de extrema sensualidade, um ícone de castidade, que deveria ser exibido somente após o matrimônio, representando a entrega de algo muito íntimo, que a partir dali seria compartilhado como símbolo de cumplicidade, evitando o conjuge de pensar "apenas seu próprio umbigo".
(2) Em tempos remotos, quando não havia água encanada e o asseio pessoal não era tão primoroso, as mais religiosas senhoras acreditavam ser o umbigo fonte de impurezas, um buraco negro, que estava em seus corpos para não lhes deixar esquecer da existência do inferno, reiterando a necessidade de se manter firme nos caminhos de Deus.
(3) Mais recentemente, o uso da saia acima umbigo na era pós-beatleamaníaca na verdade não foi concebido como uma maneira de vestir a saia, mas era sim um vestido rasgado abaixo dos seios, quando começou a se caracterizar o top less como uma mensagem social de libertação das tendências conservadoras da época.
(4) Remonta a um período de revolução moral, o uso supraumbilical da saia foi uma resposta à expressão "olhar para o seu próprio umbigo", quando as senhoras idosas, já vividas e portanto detontaras dos mais elevados princípios éticos e morais, decidiram por não expor mais seus umbigos, como marca da aversão ao egoísmo, egocentrismo e - por que não assim dizer - umbigocentrismo.
(5) Em função da queda dos seios sobre o umbigo proporcionada pela distorção senil da anatomia fenimina, associada à diminuição da amplitude dos movimentos imposta pela artrose, a antissepsia deste simpático buraquinho se faz comprometida a partir de certa idade, tornando este detalhe do corpo motivo de vergonha para as senhoras mais recatadas, de modo que esconder o umbigo com a saia se torna uma opção viável de encobrir algo que, àquela altura, passa a fugir dos preceitos de decência.

Pretendo atualizar este post caso tome conhecimento de - ou invente - outra teoria a cerca dos hábitos senis de vestuário

segunda-feira, 9 de março de 2009

Sobre a histeria...

Doença nervosa, grande excitação... várias são as concepções populares para a palavra "histeria". Quantas vezes já chamamos outras pessoas de histérico ou histérica, quando estas estão em momentos de agitação ou nervosismo intenso?
Depois de um mês sem escrever neste blog, de onde inventei esse papo de histeria? Na verdade, estava conversando por esses dias sobre história da psicologia com um profissional da área e ele me comentou alguns aspectos interessantes sobre a evolução temporal do diagnóstico e tratamento desta condição. Deste colóquio flácido surgiram informações que aqui compartilharei convosco.
O termo histeria é derivado da palavra grega hystera e significa matriz.
- De acordo com Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, matriz é o "lugar onde algo se gera ou cria; órgão das fêmeas dos mamíferos onde se gera o feto; útero.
- Hipócrates entendia a histeria como sendo uma doença orgânica de origem uterina e, portanto, especificamente feminina que afetava todo o corpo por sufocações da matriz. Ele supunha que a histeria se desenvolvia pela privação de relações sexuais, dessecando o útero, que perderia peso e se deslocaria pelo corpo em busca da umidade necessária. A paciente teria sua respiração afetada, desenvolvendo convulsões se o útero subisse até o hipocôndrio e estacionasse nesse órgão. Caso o útero prosseguisse sua subida e atingisse o coração, a paciente emitiria sinais de ansiedade, opressão e vômitos.
- Elisabeth Roudinesco e Michel Plon afirmam que "as convulsões e as famosas sufocações da matriz eram consideradas a expressão de um prazer sexual e, por conseguinte, de um pecado". A mulher era vista como sendo possuída por um demônio, que a fazia agir involuntariamente, simulando doenças, ou seja, um pitizão!
- Ramadam entendia o desenvolvimento da histeria pelo efeito de "um calor interno que propagaria através de todo o corpo uma efervescência, manifestando-se sem cessar em convulsões e espasmos". Esse calor seria representante da paixão, entusiasmo ou ardor amoroso. Dessa forma, a histeria estaria mais associada a moças que procuram namorados, jovens viúvas ou separadas.
- Freud versou sobre a etiologia sexual da histeria, citando Charcot, que “em casos semelhantes, sempre é a coisa genital”, e Chobrak, cuja prescrição apropriada para esses casos era “Penis normalis dosim repetatur
"


No serviço privado vez por outra atendo alguns casos de dor no peito e falta de ar que me remontam Chobrak... Freud explica!