domingo, 11 de janeiro de 2009

Diagnósticos esdrúxulos

Uma das piores coisas pra quem está do meu lado da mesa é quando o "doente" já chega com seu diagnóstico formulado, seja pelo próprio ou por seu acompanhante, que geralmente está eufórico no momento do atendimento. "Calma meu senhor, me diga apenas o que o senhor está sentindo, deixa que quem diz o que o senhor tem sou eu." A ansiedade é tanta que eles mal me deixam falar - e olha que eu sou daqueles que costuma deixar o paciente ter surtos verborrágicos. Em meio ao clima de aflição, em função da suposta gravidade do quadro, geralmente o paciente ou o familiar também sugere o tratamento para aquela condição patológica, na maioria das vezes curável com infusão de "soro vitaminado" (sic)!
Cito a seguir algumas condições clínicas diagnosticadas pelos meus criativos pacientes no meu último plantão (durante as férias):

(1) Abrimento de boca:
Bocejo frequente, geralmente acompanhado de "fraqueza generalizada" e "frio nas pernas", que geralmente vem de baixo para cima.
(2) Mini convulsão: Paciente inicia movimentos estereotipados de abrir e fechar as mãos, repetidamente, similares aos do saudoso professor Chapatin, acompanhado de "reviramento dos olhos". História de libação alcólica é elemento comum na anamnese.
(3) Agitamento de artérias: Comumente observado em estados de estresse, faz referência à percepção visual do pulso da artéria carótida. Costuma ceder com "massagem no peito".
(4) Aproximação do nervo sádico: Episódio de dor lombar de forte intensidade, irradiada para face posterior da coxa e calcâneo, com sensação de "choque" ao pisar no chão. Quadro clínico similar ao de uma "comprassão do nervo ciático".
(5) Bicho de macaco: Comum entre os pescadores do cinturao do salgado, geralmente corresponte a corpo estranho na mão, após "tratar" (tirar as escamas com a faca). A lesão já se apresenta com granulação e escasso conteudo purulento. É condição de fácil diagnóstico quando da presença do binômio exposição ocupacional + expressão típica "dotô, vim pra tirar um bicho de macaco".

P.S.: O acompanhante que mais opina é o vizinho, o qual já teve aquele quadro antes e tomou um remédio X que resolveu o problema, e agora você tem que se virar pra explicar porque esse não é o melhor tratamento no momento.

2 comentários:

  1. HUAHUAHUAHUAHUAHUA, nossa, saudoso professor Chapatin, essa eu não aguentei, kkkkkkkkkk. Muito boa, brilhante :) E o pior é que realmente eles já vem com o nome do medicamento na ponta da língua. É o novo costume adquirido pelas "Big Extras" da vida!

    ResponderExcluir
  2. É realmente triste que uma pessoa passe por todas as fases de uma faculdade de medicina para debochar de seus pacientes. Pacientes esses que na maioria das vezes não sabem se quer assinar seus nomes, e esperam por horas e horas para serem atendidos. E o que dizer de seus amigos ou familiares que o acompanharam até o "médico" na esperança de encontrar ali uma pessoa que estudara 6 anos por amor, e não para recolher com juros os gastos da formatura. Faço sinceros votos que vc NÃO PASSE NA PROVA DE RESIDÊNCIA, POR SEU COMPORTAMENTO TOTALMENTE ANTIÉTICO. E LAMENTO POR TER PASSADO NO VESTIBULAR E PIOR, POR TER SE FORMADO.

    ResponderExcluir